Dezembro na liturgia católica, a Independência e a Padroeira de Portugal

Por Luís Henriques

O mês de Dezembro é um dos mais ricos da liturgia católica e oferece a particularidade de ser aquele em que pelo menos duas das festividades têm implicações na História Pátria, traduzindo a bem sucedida aliança entre a Cruz e as Armas de Portugal — tal facto não é de estranhar porque as quinas nasceram de um acto de fé na Cruz do Redentor.

Foi por meio dessa aliança que a Igreja dilatou a Fé e foi beneficiando dela que Portugal fez-se famoso e teve projecção universal; mergulhando as suas raízes nas verdades eternas da mensagem de Cristo, a alma nacional abalançou-se a ousados empreendimentos, alargou as fronteiras da Europa, embarcou nas caravelas, iluminou Continentes e deu ao Mundo novos mundos.

É no mês de Dezembro que a Igreja festeja com grande júbilo o nascimento de Deus Menino, o Filho do Altíssimo incarnado no seio de Maria. É a 3 de Dezembro que a Igreja festeja o varão justo e santo que, evangelizando os povos do Oriente, acrescentou o domínio espiritual de Portugal, tornando-o conhecido, respeitado e amado em vastas regiões da Terra: S. Francisco Xavier, missionário de primeira grandeza e grande Apóstolo de Cristo, anunciando a Boa Nova, alargou as fronteiras da nossa Pátria e universalizou o génio lusíada.

No primeiro dia de Dezembro comemora-se o aniversário da Restauração da Independência. É o povo português a festejar a vontade indómita dos bravos conjurados que, enfrentando a fúria castelhana, estimularam as energias reprimidas de um povo resolvido a optar pela morte em vez de ter que viver na escravidão; é o Portugal genuíno que aplaude o reatamento do fio quebrado da sua sublime missão no Mundo: rasgar trevas e espalhar a luz, evangelizar povos e civilizar terras, implantar cristandades e construir impérios!

Finalmente, a 8 de Dezembro a Igreja festeja a Conceição Imaculada de Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens. Nós, portugueses, não podemos deixar de prestar as melhores homenagens à Virgem das Virgens, porque o fundador da nação, o rei D. Afonso Henriques, por mercê d’Aquela que é a Saúde dos Enfermos, tornou-se são de corpo e forte de braço para talhar a golpes de montante as fronteiras de Portugal.

Seria imperdoável ingratidão se não unissem as suas vozes às da Igreja os netos daqueles ousados guerreiros, de rubra cruz sobre a armadura, que aos brados de S. Tiago e Virgem Maria, escalaram afoitamente as muralhas de Lisboa, Santarém, Silves e Tavira e baniram o invasor.

Não podem deixar de glorificar a Virgem Poderosa os leais portugueses de hoje que, por imperativo de ancestralidade, sentem correr nas suas veias o sangue daqueles que, às ordens de D. João I e do Santo Condestável, venceram as armas de Castela em Atoleiros, Valverde e Aljubarrota; daqueles que nessas gloriosas pugnas imolaram a sua vida com os olhos e corações no augusto luzeiro que, adejando sobre os campos de batalha, ostentava em seu alvo pano e por entre os braços da Cruz do Salvador, a doce imagem da Virgem Santa Maria.

O Portugal de hoje, embora indigno dos sacrifícios do Portugal dos séculos XV e XVI, do Portugal Cavaleiro de Cristo, tem o dever de suplicar à Rainha dos Mártires pela bem aventurança do Portugal ferido em mil prélios, consumido em duras empresas, esgotado de fadigas, moído de ausências, dilacerado de dor, morto de sede ou abismado no fundo dos mares, isto é, pelo Portugal martirizado que sofreu e se imolou.

Nas homenagens em louvor e glória da Rainha de todos os Santos, nunca deixam de participar os que se honram de descender daqueles arrojados navegadores que, deixando terras e lares e por Deus e pela Pátria, aventuraram-se em frágeis caravelas fiados nas invocações à Virgem Santa e, guiados pela Estrela dos Mares e Senhora dos Navegantes, devassaram os oceanos, sofreram naufrágios e suportaram mil tormentas.

Para culminar o reconhecimento da protecção dispensada pela Mãe de Cristo à nossa Nação, por proposta do Rei Restaurador, em 8 de Dezembro de 1646, as Cortes portuguesas solenemente proclamaram Nossa Senhora da Conceição, concebida sem mácula original, particular, única e singular Padroeira e Protectora de Portugal; e, para concretizar tal aclamação, o Rei que foi fiador e garantia da nossa Independência, depôs aos pés de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa a sua própria coroa real.

E fiados em tão alta protecção, os nossos avós, acorreram às fronteiras de armas na mão, empenharam-se em batalhas durante 28 anos, jogaram as suas vidas em muitos combates, resgataram o Brasil e restauraram a soberania portuguesa em Angola!

É penoso verificar que depois de tantos séculos de imorredoira glória se tenha deixado mutilar a unidade da Fé, vilipendiar os sentimentos religiosos do povo e se tenha afastado da grandeza de outras eras; para maior vergonha, as antigas epopeias foram substituídas por lutas fratricidas e traições, que dissiparam bens, roubaram vidas, cavaram ódios e colocaram a Pátria em situação humilhante.

Porém, a despeito das vilanias e ingratidões, a Virgem Maria compadeceu-se do povo que se considerava seu filho; mostrando o seu amor pela nossa terra e tendo em consideração os merecimentos alcançados pelo Portugal dos nossos avós, a Virgem Santíssima honrou-nos escolhendo um cantinho humilde da nossa Pátria, a Cova da Iria, para transmitir pessoalmente a três pastorinhos a sua mensagem de salvação para todo o Mundo.

Glória à Rainha e Padroeira de Portugal!

luis.henriques2014@gmail.com

Luis Henriques

 

 

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Paulino Fernandes
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