Construir um Portugal mais temperado e menos revoltado

O que une o centro-direita (governo) e o centro-esquerda (PS) são o compromisso com o liberalismo económico e o consequente seguimento do imperativo da desregulação ditada por Bruxelas. Direita e esquerda do arco do poder têm assim o seu centro comum vinculativo (intervenção da EU e do FMI – as obediências orçamentais comuns que não permitem diferenciação de políticas económicas); deste modo os partidos do arco do poder de Portugal abstêm-se praticamente do predicado esquerda ou direita, o que beneficia os outros partidos da esquerda e obriga o PS a grande ginástica na estratégia de chamar as atenções públicas para si e de ocupar o país com discussões táticas sobre as diferentes personalidades e facções do PS; disto vive bem (permite-lhe também absorver desertores de esquerdas mais radicais mas com aspirações a participar concretamente no poder) ocupando a mente dos portugueses já de si perdida em debates não produtivos.

O jornalismo também vê assim o seu trabalho simplificado porque para fazer notícia só precisa de andar atrás dos cabeças ou de algum que urine fora do penico.

Cria-se assim uma dinâmica de contínua necessidade de perfilagem dentro e fora do partido. Certamente por isso se movem tanto as ondas da emoções nacionais tendo-se a impressão (a quem viveu no estrangeiro) que Portugal se encontra em contínua campanha eleitoral sem grande tempo para dar suficiente atenção às questões fundamentais da economia e da cultura.

Mesmo agora, que deveria ser tempo útil de discussão da negociação de programas para se encontrar compromissos para a governação dos próximos quatro anos, assiste-se, como de costuma, à discussão sobre personalidades partidárias e não sobre temas discutíveis do programa.

O Norte europeu orienta-se por Programas o Sul por Partidos

Os partidos da Alemanha, para defenderem o bem-estar do país, passam muito tempo na discussão e elaboração de programas de governo e na formação de coligações governamentais; isto porque cuidam pelo futuro do país em vez de dividirem a nação nos da manjedoura da direita ou da esquerda.

Por isso os partidos alemães preferiram fazer uma grande coligação que preparou responsavelmente um programa de governo que precisou de 80 dias de conversações até chegar ao dia do compromisso; depois passou à governação abandonando a discussão. Na Suécia seis partidos conseguiram elaborar e comprometer-se num programa que é válido até 2022; isto independentemente dos governos que surjam.

Urge ultrapassar a mentalidade política bipolar de um Portugal desde sempre afirmada pelo sistema partidário a viver da polarização. Já é tempo de construir um Portugal mais temperado. A vida é curta, não olhes para trás senão tropeças nos que se te adiantam.

O problema dos partidos à esquerda do PS (e dos radicais do PS) é quererem continuar a levar uma vida de alto nível à custa do capitalismo liberal pautado pela Zona Euro e no seu interior regalar-se com a satisfação de ideias contraditórias puras e inocentes ou com postos públicos que lhes dão imunidade em relação às ideias que defendem mas não solucionam os problemas da pobreza. O Norte europeu rico orienta-se por programas de governo que o tornam rico e o Sul orienta-se por partidos que o mantem no standby ou na pobreza.

O ser humano é um consumidor de histórias e o que o mais distrai são histórias, por isso há tantas que se tornam verdadeiras porque mal contadas…; uma delas: “Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz.” Com isto fomos ensinados a aceitar e justificar a violência do poder. A teoria é bela, o problema só está na prática (Veja-se a saga das personalidades do 25 de Abril e seus discípulos – afirmaram-se contra o capitalismo e à custa dele enriqueceram mantendo a conversa de esquerda para inglês ver e a sapata do povo carente que tudo sustenta).

Uma política partidária responsável deveria constituir uma coligação, pelo menos, dos dois partidos mais votados. Com isso ganhariam, naturalmente, os partidos mais à esquerda mas Portugal ganharia mais ainda. Com uma grande coligação talvez se iniciasse em Portugal uma política e um discurso menos partidário, mais objectivo e mais no sentido de todo o povo português.

Tudo isto contribui para a maneira de ser do nosso país que Miguel Torga tão bem define:

António Justo

António Justo

Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados” e que eu comentaria com as palavras: Somos um grupo de colectividades civis sem a consciência de povo, por isso sempre descontentes e revoltados.

  • António da Cunha Duarte Justo, Correspondente na Alemanha

Jornalista

Pegadas do Tempo www.antonio-justo.eu

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Paulino Fernandes
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