Joaquim Vitorino

 

A Dignidade é o vértice de todos os sentimentos humanos; e quando esta se perde, todos os outros se desmoronam.

Recentemente e num espaço de três meses, os portugueses foram chamados por duas vezes a votar; devolver a dignidade, foi uma das frases pomposas mais vezes utilizada pelos candidatos da esquerda à direita; portanto, partiram do pressuposto de que muita gente a perdeu. Não podia estar mais de acordo com a intenção, mas a dignidade não é uma semântica filosófica; é um sentimento humano, que não se perde por se ser pobre; mas a pobreza de longa duração, é o caminho que leva muitas vezes à perda da dignidade.

Um casal de reformados com um rendimento conjunto de 730 euros, sentou-se comigo à mesa de uma pastelaria no Cadaval onde tenho residência, e a quem convidei para tomar um café; o casal tem a filha e genro desempregados de longa duração, já sem direitos a subsídios apesar de terem duas crianças; os avós, com as suas “miseráveis” reformas são o único suporte das 6 pessoas desta humilde família; de onde será deduzido 190 euros para a renda da casa; vivem cheios de privações, e eu receio que muitos dias as crianças se deitem apenas com sopa no estômago.

Fiquei chocado de tristeza e revolta; disse-lhes que pedissem ajuda a amigos ou instituições, porque não é vergonha pedir trabalho e comida, se não conseguimos o primeiro; disseram-me que pedir “esmola” é perder um pouco a dignidade, e que apesar de todas as dificuldades a querem manter.

Mas eu insisti, que não faço essa leitura numa situação de emergência como a que está em causa; que é o alimento mínimo para as crianças sobreviverem e se manterem saudáveis; até porque serão elas que no futuro, terão que pagar a dívida pública que enriqueceu 10% da população deste país; que em parte são responsáveis, pela pobreza endémica que atingiu o nosso país.

Esta conversa com o casal de reformados deixou-me um pouco em baixo, porque sei que o caso em concreto é a ponta do iceberg do que se está a passar neste pobre país; e disse-lhes que não perdessem a esperança, porque Portugal tem que mudar; e se não existir coragem política para inverter o ciclo de pobreza em que os portugueses caíram, a pressão será exercida do exterior; para que se acabe com tanta desigualdade e injustiça, num país que abusa do termo a “democracia”.

Nesse mesmo dia, fiquei indignado com a afirmação de uma candidata à Presidência, que subscreveu uma petição para que fossem devolvidas as subvenções que tinham sofrido cortes; e mais disse, que nunca jamais abdicaria dos seus direitos.

É desprezível e até ultrajante, que alguém que se candidata a ser a mais alta figura do Estado, tenha colocado os seus interesses e dos seus amigos, à frente dos de centenas de milhares de crianças portuguesas que todos os dias se deitam de estômago vazio; um comportamento destes, revela um total alheamento pelo sofrimento do povo que diz querer representar.

A arrogância da senhora chegou ao cúmulo de no discurso da derrota que durou 90 segundos, não cumprimentar o candidato vencedor; e de sair sem sequer se dirigir aos Jornalistas para lhes dizer boa noite.

O país está pobre e carece de quase tudo; mas do que não precisa, é de alguém que o queira representar sem o mínimo de sensibilidade pelo sofrimento de um povo, que há décadas vem sendo sistematicamente espezinhado por aqueles que se dizem seus defensores; e neste caso alguma razão assiste ao atual 1º Ministro, em não ter declarado apoio a essa senhora.

Quanto á dignidade, ninguém a consegue manter submersa na pobreza; porque ela é a portadora de muitos dos males, que fogem ao controle de quem é apanhado neste terrível paradigma; que é escolher entre a sobrevivência, ou manter a dignidade em pobreza extrema.

O Cadaval é o Concelho mais pobre da Zona Oeste, e um dos mais pobres de Portugal, não obstante estar situado a 65 quilómetros da Capital do país, e estar bem servido por dois Auto Estradas A-8 a Ocidente e A-1 a Oriente e ainda a linha férrea, que passa a 3 quilómetros no vizinho Concelho do Bombarral.

As estradas encontram-se num estado lastimoso; a falta de dinamismo empreendedor por parte dos autarcas locais, reflete-se na baixa taxa de empregabilidade no Concelho, que se vai traduzindo em pobreza de toda a ordem.

A falta de esgotos públicos em vários locais, constitui um grave atentado à saúde pública; e são consequência de uma gestão da mesma força política, sem dinamismo e quase “apagada” em 14 anos sem alternância; onde a pobreza atingiu severamente este Concelho, que está a chegar perigosamente à linha de difícil reversão.

Nos discursos quando da tomada de posse do atual primeiro-Ministro, e mais recentemente na vitória das presidenciais, ambos falaram em devolver a dignidade aos portugueses; esqueceram-se que ambos representam os partidos que são os principais responsáveis pela enorme “fábrica da pobreza”, que levou dezenas de milhares de portugueses que até então foram cidadãos exemplares, à compulsiva “perda da dignidade”. 

Joaquim Vitorino

Joaquim Vitorino

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Portugal – Oeste

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Paulino Fernandes
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