Ingenuidade

Decorria o ano de 1974, quando em 25 de Fevereiro , aterrava no Figo Maduro o avião da Força Aérea Portuguesa que transportou desde a cidade da Beira em Moçambique a CCS do B. Caç 3866, que cumpriu uma missão de serviço no Distrito de Tete, na localidade (Vila) denominada pelo nome de Furancungo, onde esteve 29 meses consecutivos.

Na época os jovens que cumpriram o serviço militar obrigatório, eram maioritáriamente da província, e de entre eles surgiam alguns citadinos, de Lisboa, do Porto; Coimbra e de outras cidades, por vezes e com algum gozo, perguntávamos uns aos outros de onde eram, e alguns diziam ( sou de Castelo Branco) quando na verdade eram nascidos e criados por exemplo em Malqica do Tejo.

Outra das guerras de palavras, acontecia entre os citadinos; e tinha o seu quê de cómico, traduzia-se em quem melhor conhecia a sua própria cidade, e de vez em quando tornava-se “viral”, pois era difícil para alguns que pouco  tinham saído do seu bairro ou das grandes artérias, por exemplo saber onde era a travessa Pé de Ferro, na Madragoa.

Lembramo-nos todos quase sem excepções o tempo inútil  que por lá passámos e de entre nós os mais esclarecidos,tentávamos por todos os meios minimizar os estragos na nossa mente por enquanto ainda virgem e ingénua; assim quase todos aprendemos os jogos de “MESA” mais populares e outros não tanto, que permitiam que decorressem horas sem se dar por tal.

Era suposto, não fazer “ondas”, o que significava não dar nas vistas e tão somente, tal o fazer no desporto que por lá se fazia,jogar à bola, andebol e pouco mais.

Desde sempre,que ainda miúdos e até jovens a imagem de África, a mais marcante era a savana e os seus animais selvagens, interessante, foi verificar que mesmo no mato, poucos foram os que os viram, tirando umas hienas e uns macacos, aqueles que estavam na nossa ideia, os leões, os elefantes, os rinocerontes, etc, poucos os viram e pela primeira vez a palavra ingenuidade, veio ao nosso pensamento, afinal,  África não era como nos tinha sido descrito.

Regressando ao primeiro parágrafo, a nossa “INGENUIDADE” foi então gritante, apenas dois a três meses passados do nosso regresso , de repente a guerra das Colónias, ou do Ultramar, não tinha existido, tinha sido outra a guerra, a guerra de Libertação dos Povos Africanos.

Finalmente, o STRESS… palavra inglesa, que pouco nos dizia!

Dos U.S. chegavam notícias dos veteranos do Vietname, que sofriam essa doença, da Guiné, e das outras frentes de guerra, corriam notícias um pouco alarmantes, além dos mortos e feridos, vinham uns homens que tinham uns sintomas esquisitos, tinham perdido a ingenuidade e ganho uma doença.

  • Carlos A. R. Lopes, Veterano da Guerra em África

 

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Paulino Fernandes
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