Querida Lusitânia

 Por António L. Graça

Na história de Ali Bábá os ladrões eram apenas quarenta

Dura Lex

No intervalo de pouco mais de uma semana os portugueses foram surpreendidos por dois casos de polícia, que conduziram à detenção de altas figuras da Administração Pública, entre os quais o Director de uma força policial e um ex-primeiro ministro, e à demissão de um ministro e de quadros superiores de dois ministérios.

Num país de brandos costumes e no qual pontificam as culturas do compadrio e do “nacional porreirismo”, as detenções, particularmente a do ex-primeiro ministro, provocaram desde logo as mais variadas reacções.

No caso dos vistos dourados, apenas o Ministro da Administração Interna teve a dignidade de se demitir do cargo por entender, e muito bem, que não tinha condições para o continuar a desempenhar cabalmente. Provavelmente, outros deveriam ter-lhe seguido o exemplo, mas a sua falta de dignidade impediu-os de o fazer.

No caso do ex-primeiro ministro, a população em geral apoiou a actuação da Justiça, já a nível da classe política e dos seus satélites, apesar dos esforços de alguns entrevistados, no sentido de acentuarem a independência da Justiça e a sua separação da política, apareceram algumas reacções trauliteiras, roçando mesmo a imbecilidade, da parte de alguns personagens que, se a justiça tivesse funcionado atempadamente, decerto teriam tirado ao cidadão Pinto de Sousa, o protagonismo de ser o primeiro governante português a ser preso.

Como seria de esperar iniciaram-se já movimentos no sentido de desacreditar as investigações do caso, nomeadamente através das súbitas preocupações com o segredo de justiça ou da forma como foi feita a detenção do sr. Pinto de Sousa, havendo quem, sem pingo de vergonha, sugira o afastamento dos magistrados encarregados do caso, tal como se faria numa qualquer ditadura das bananas.

Este caso tem, em meu entender, as seguintes duas linhas de análise principais:

– O cidadão José Sócrates Pinto de Sousa,

– O ex-primeiro ministro José Sócrates

Quanto ao cidadão José Sócrates Pinto de Sousa, a actuação da Justiça não deve ser criticada. Não percebo porque é que aqueles que passam o tempo a criticar a Justiça por ter comportamentos diferentes para os fortes, vêm agora dizer que, neste caso se justifica um tratamento diferente. Devem estar a brincar.

Se não fôr armadilhado, o julgamento das acusações em que está pronunciado, se encarregará de provar a sua culpabilidade, ou a sua inocência, a qual, até prova em contrário, se mantém.

Quanto ao ex-ministro, a sua culpabilidade política está assegurada pelo julgamento que a opinião pública já fez do caso, e só a sua absolvição pelas instâncias judiciais competentes, feita em termos correctos e sem recurso a truques, poderá alterar essa posição.

No caso da opinião pública, o político José Sócrates tem antecedentes que não lhe são favoráveis, nomeadamente os diversos casos em que o seu nome foi envolvido sem que se tenha produzido um esclarecimento transparente da sua ligação aos mesmos. Refiro-me, por exemplo, à sua licenciatura, ou aos casos do aterro sanitário da Cova da Beira, do Freeport, etc..

Na sua situação actual, ao ex-primeiro ministro assiste contudo o direito de, como dizem os brasileiros, perguntar:

Cá dê os outros?

Até breve

António L. Graça

 

 

 

 

 

 

 

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