Memórias

GUINÉ. SINCHÃ JOBEL, 20 DEZ.67. “RESGATAR” DESAPARECIDOS EM COMBATE.

No dia  19 DEZ.67, a minha Companhia (C.Artª.1690) coadjuvada pela C. Artª.1742, do Capitão Cohen, registou o seu pior “desaire” de toda a nossa comissão.

Tínhamos recebido a missão de tomar e destruir a base de Sinchã Jobel, do regulado de MANSOMINE, sob o Comando  do Coronel Lúcio Soares, futuro Ministro da Defesa de “Nino” Vieira, cujo comissário político era Agostinho da Silva, o célebre “GAZELA”.

A nossa Companhia e a C. Artª.1742 foram “atraídas” por sentinelas “avançadas” do I.N. (de então) a uma clareira envolvida por um extenso palmeiral.

Esta base dispunha de uma boa rede de informações com agentes duplos infiltrados a nível do Batalhão, sedeado em Bafatá, em especial junto da Repartição de Operações que planeava e ordenava as várias missões.

Normalmente eram as “lavadeiras”, mas também elementos do recrutamento local, que se infiltravam nas NT (nossas Tropas), quase sempre agentes duplos que forneciam ao P.A.I.G.C. todas as informações sobre os nossos movimentos e operações.

O meu Grupo de Combate (GCOMB) estava destacado em CANTACUNDA e, acompanhado da minha escolta e respectiva logistica, desloquei-me em 18.DEZ.67 à sede da companhia, GEBA, para recolher correio e alguns géneros, bacalhau e sardinha enlatadas, para melhor passarmos a noite de Natal, que se aproximava, na qual ninguém “pregava olho”.

Deparei-me então nessa noite (18.Dez.67) com uma grande azáfama, a preparar a “operação” do dia seguinte, com inicio pelas 04h00, hora a que todos os “destacamentos” iniciavam a sua convergência para o “objectivo”.

Ordenou-me o meu Capitão, Carlos Sarmento Ferreira, substituto do original, Manuel Carlos Guimarães, caído em combate no dia 21AGO67, que, nesse dia, 19DEZ67, e uma vez que todos os oficiais estariam empenhados na “operação” de JOBEL, comandasse uma coluna de reabastecimento ao nosso destacamento de BANJARA, o nosso pior, e o 2º pior de toda a Guiné, então comandando pelo meu Camarada e Amigo, Alferes Alfredo Reis, o único oficial sobrevivente da C. Artª.1690, comigo, desde o 1º. ao último dia desta martirizada, mas “nobre” e valorosa Companhia.

A nossa Companhia em cujo desencadear do embate ouvimos praticamente desde o 1º tiro, viria a ser completamente desmantelada assim como a C. Artª. 1742, que surpreendidas por uma forte emboscada em “circulo”, num extenso palmeiral, com metralhadoras pesadas instaladas em algumas copas destas palmeias, flagelavam de todas as direcções as NT, que se viram impotentes e totalmente surpreendidas com uma destas  reacções, comandadas por oficiais cubanos, cuja presença ali foi registadas pelas ordens, em “castelhano”, dadas aos seus combatentes.

Nessa noite, pelas 21 horas começaram a chegar ao quartel, aos“magotes” vários grupos de soldados, totalmente desmoralizados e exaustos.

Faltavam ainda cerca de 25 elementos, entre os quais o Alferes Fernando da Costa Fernandes, o “AZNAVOUR” que julgávamos morto e irrecuperável.

Recebo ordem para os recuperar, na manhã do dia seguinte, no campo da batalha de onde não tinham regressado.

De imediato organizei  uma força de cerca 60 homens, bem armados, todos voluntários, soldados excepcionalmente generosos, os melhores do Mundo, para, no dia seguinte cumprirmos esta arriscada mas imperiosa e inadiável missão. Operação que iniciamos pelas 04,00 horas do dia 20.Dez.67, todos em marcha lenta apeada para não denunciarmos a nossa movimentação.

Cerca das 08.00 horas estávamos em frente ao “objectivo”, isto é, da lado de “cá” da bolanha.

Mal iniciamos a marcha por uma “picada” em direcção à célebre ponte do Rio Gambiel, aparece-nos um grupo de 3 soldados, completamente exaustos e famintos, que correram para nos abraçar, totalmente esgotados e desmoralizados.

Mandei distribuir-lhes uma ração de combate de que a “minha logística” vinha guarnecida.

Fizemos um alto para fazer o ponto da situação.

Percorremos mais 2 ou 3 quilómetros e agora aparece mais um “magote” de outros 6(seis) nas mesmas condições.

Mal iniciamos a marcha por uma “picada” em direcção à célebre ponte do Rio Gambiel, aparece-nos um grupo de 3 soldados, completamente exaustos e famintos, que correram para nos abraçar, totalmente esgotados e desmoralizados.

Mandei distribuir-lhes uma ração de combate de que a “minha logística” vinha guarnecida.Fizemos um alto para fazer o ponto da situação.

Percorremos mais 2 ou 3 quilómetros e agora aparece mais um “magote” de outros 6(seis) nas mesmas condições.

A mesma cena, mas dramática, porque um deles vinha gravemente ferido.

Mais à frente havíamos de encontrar ainda mais outro grupo de 6 ou 7.

Tinha pedido apoio aéreo, que pontualmente me foi concedido, cerca das 9 horas.

Era uma escolta de 2 “bombardeiros” T-6, que ladeavam e protegiam, cada um por seu lado, o nosso avanço pela picada.

Cerca das 10 horas recebo uma mensagem, via Rádio de um dos pilotos, a avisar-me que à nossa frente, a cerca de 2 quilómetros, já tínhamos à nossa espera uma forte emboscada do I.N..

De imediato invertermos a marcha e, caminhados mais uns 2 ou 3 quilómetros, fui de novo avisado que tinha outra emboscada à nossa frente, para nos “barrar” no regresso.

Ordenei então à minha tropa que se afastasse da picada, e se embrenhasse na mata densa, até á margem direita do rio Geba que atingimos e progredimos até ao quartel, que alcançamos cerca das 12 horas, visto que tínhamos de evitar o confronto directo para proteger a vida dos outros soldados ainda não recuperados.

No dia seguinte repetimos esta operação pois ainda faltavam 9 ou 10.

Recuperamos todos, à excepção do Alferes Fernandes “O AZNAVOUR”, que nunca mais voltamos a ver, o Manuel Fragata Francisco, natural de Alpiarça, gravemente ferido e levado para Ziguinchor, tendo-o PAIGC entregue em Março de 1968, entregue à Cruz Vermelha Internacional, que o transportou para o HMP em Lisboa.

Ficou ainda o Armindo Correia Paulino, o magarefe da companhia, natural de Lamego, que soubemos mais tarde, foi assassinado à facada fria e cobardemente, por 4 elementos IN, depois de o terem cercado e aprisionado.

António Martins Moreira

Advogado

(Alferes Mil Infª “Op. Especiais” – C. Artª. 1690-Guiné 1967/1969)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

António Moreira

A mesma cena, mas dramática, porque um deles vinha gravemente ferido.

Mais à frente havíamos de encontrar ainda mais outro grupo de 6 ou 7.

Tinha pedido apoio aéreo, que pontualmente me foi concedido, cerca das 9 horas.

Era uma escolta de 2 “bombardeiros” T-6, que ladeavam e protegiam, cada um por seu lado, o nosso avanço pela picada.

Cerca das 10 horas recebo uma mensagem, via Rádio de um dos pilotos, a avisar-me que à nossa frente, a cerca de 2 quilómetros, já tínhamos à nossa espera uma forte emboscada do I.N..

De imediato invertermos a marcha e, caminhados mais uns 2 ou 3 quilómetros, fui de novo avisado que tinha outra emboscada à nossa frente, para nos “barrar” no regresso.

Ordenei então à minha tropa que se afastasse da picada, e se embrenhasse na mata densa, até á margem direita do rio Geba que atingimos e progredimos até ao quartel, que alcançamos cerca das 12 horas, visto que tínhamos de evitar o confronto directo para proteger a vida dos outros soldados ainda não recuperados.

No dia seguinte repetimos esta operação pois ainda faltavam 9 ou 10.

Recuperamos todos, à excepção do Alferes Fernandes “O AZNAVOUR”, que nunca mais voltamos a ver, o Manuel Fragata Francisco, natural de Alpiarça, gravemente ferido e levado para Ziguinchor, tendo-o PAIGC entregue em Março de 1968, entregue à Cruz Vermelha Internacional, que o transportou para o HMP em Lisboa.

Ficou ainda o Armindo Correia Paulino, o magarefe da companhia, natural de Lamego, que soubemos mais tarde, foi assassinado à facada fria e cobardemente, por 4 elementos IN, depois de o terem cercado e aprisionado.

António Martins Moreira

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