O Discurso da Confiança

A resignação e a paciência têm vindo a alimentar os portugueses, que desde sempre se caracterizaram como um povo que facilmente se deixa arrastar pela demagogia de quem tudo lhes promete, com o objetivo de chegar ao poder.

A esperança de melhores dias, deu lugar ao conformismo e apatia perante a degradação de vidas e famílias que deixaram cair os braços, resignados com as condições de vida que as classes políticas lhes impuseram.

Portugal diga-se, teve todas as condições para sair rapidamente da crise; mas não soube aproveitar algumas oportunidades colocadas à sua disposição, porque alguns responsáveis estavam mais preocupados em manter os privilégios, do que resolver as questões de fundo da sociedade portuguesa, que são relançar a economia para depois poder debelar a pobreza.

A esperança em dias melhores, tem vindo a abandonar os mais otimistas, e o tempo vai inexoravelmente passando, e as espectativas continuam sempre vazias; existindo um grande vácuo e desconfiança que separa o povo da classe política; que não tem capacidade para se conciliar com o cidadão e transmitir-lhe o que é fundamental na situação em que nos encontramos; “o discurso de confiança”, sendo esta transmissão de esperança que todos os partidos políticos têm falhado.

Portugal refugiou-se no aumento da dívida pública a que se junta a cobrança de impostos coercivos, a caça à multa por todos os meios e um peso cada vez maior da carga fiscal; o que dá aos portugueses uma frágil e “falsa” tranquilidade de que estamos no caminho certo para superar aquela que a nível da Europa, é a segunda e mais prolongada crise iniciada há sete anos; estando todos os outros países já há algum tempo no caminho da recuperação.

Portugal teve a infelicidade de ter caído em mãos de fracos gestores, estando a maioria deles viciados em privilégios de que não abdicam, continuando a cometer os mesmos erros sucessivos.

Mas o grande estrondo vem a caminho com a insustentabilidade na segurança social que vai despertar os portugueses para uma trágica realidade.

Nesse dia acaba a resignação dos portugueses porque a situação será muito grave, porque não se pode continuar a sustentar reformas algumas milionárias com dinheiro proveniente da dívida pública.

Os credores sabem que só vão recuperar o seu dinheiro com o desenvolvimento económico; este é o mergulho que Portugal está a dar no caminho da situação grega a curto prazo; aliás, creio que será essa a grande tragédia que se avizinha.

Portugal é uma exceção única no Mundo em que os pobres não têm interesse em pertencer à classe média, a mais sacrificada e a mais produtiva; são eles que têm sobre os ombros a responsabilidade de responder perante as futuras gerações, os desmandos incontroláveis de um país hipotecado por centenas de anos; a que se junta o ónus de ser a classe média a ter que dar a volta ao incompreensível atraso em que as elites políticas colocaram Portugal; sendo a classe média que detém o conhecimento e a força de trabalho para inverter a desgraça que nos atingiu.

Numa fria análise do que se passou nos últimos anos em Portugal, constatamos que a culpa é de todos os portugueses; pelo que é melhor neste momento colocarmos como prioridade a solução versus culpa.

Hoje numa conversa de café com um economista de 84 anos, disse-me ser urgente um pacto de regime PS/PSD para por termo à escandalosa exigência salarial de empresas controladas pelo Estado, que num só ano deram de prejuízo no seu conjunto mais de 2.000 milhões de euros; é por isso que, quem tem durante anos beneficiado desta situação tenha pavor em ouvir falar em privatizações.

São essas empresas, que se alimentam de demagogia politica através dos seus dirigentes sindicais e uma forte militância nos locais de trabalho, algum protagonismo político de esquerda sempre na vanguarda contra as privatizações.

Volto a repetir o que escrevi num artigo anterior; o Reino Unido, num momento difícil da situação económica daquele país, viu algumas das suas melhores empresas terem que ser privatizadas; com a Rolls Royce e a Rover cair nas mãos dos alemães e a Jaguar também já tinha sido vendida à Ford; e a British Airways, para sobreviver teve que fazer acordos de exploração com outras companhias como a Ibéria, em que ambas passaram por grandes cortes.

Os portugueses, em especial os da classe média, não podem estar a suportar os privilégios daqueles que há vários anos auferem elevados salários, alimentados pela dívida pública que as gerações futuras terão que pagar; uma grande imoralidade e injustiça que um dia será por eles julgada.

Joaquim Vitorino

Joaquim Vitorino

Joaquim Vitorino

OBS: O Autor escreveu ao abrigo do acordo ortográfico

 

 

 

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