As Grandes Batalhas Medievais
A coragem é um fator determinante na ascensão de um guerreiro a Santo, mas não serve a todas as causas que lhes estão subjacentes.
A bravura num campo de Batalha tem que representar a causa coletiva, face à ameaça da perda de liberdade de um povo; do risco de cair no esclavagismo, e muitas vezes de perder a própria Nação. As grandes batalhas medievais, ainda hoje movem paixões e admiração; e também deslumbramento pela entrega de homens e mulheres, a causas que muitas vezes ultrapassaram o concebível e racional, que leva à entrega das próprias vidas.
Os da linha da frente de Batalha, sabiam que na primeira carga inimiga seriam mortos; mas algo muito mais forte os transcendia; o sentido do dever e o patriotismo, foram sempre uma incontestável motivação para a entrega total; onde não foram raras as vezes que a esperança perdida, deu lugar a um sentimento mais profundo a Fé.
Existem dois casos de Batalhas medievais que me fazem meditar; até porque, ambas se revestem de contornos da mesma similaridade e distam entre si 30 anos; em que alguns dos guerreiros acredita-se, teriam combatido nestas duas famosas batalhas que levariam em caso de derrota, os dois países á perda da independência; a de Aljubarrota e Azincourt 30 anos depois.
Ambas têm uma grande semelhança; cujos Chefes militares são Homens de uma enorme Fé e extraordinários oradores, que levaram os seus soldados a uma Vitoria estrondosa contra um inimigo numericamente superior, um para seis em ambos os casos.
Mas o mais “espantoso” nos dois confrontos, foram as baixas que nos dois casos foram muito maiores do lado de quem perdeu; em Aljubarrota 4 castelhanos perderam a vida por cada português caído em combate; sendo as perdas francesas em Azencourt 12 vezes superiores às de Henrique V de Inglaterra, que antes do combate recebeu várias vezes o Arauto francês a insta-lo à retirada o que não aceitou; recordo que Azincourt é em território francês. 
Henrique V dirige um dramático apelo aos seus homens antes de iniciar a Batalha; e incute-lhes a Fé em Deus e fala-lhes de São Crispim, porque a Batalha foi no dia comemorativo deste popular Santo. Henrique levanta a moral dos seus homens quando convicto e determinado lhes diz; irão lamentar pelo resto das suas vidas, todos aqueles que não têm a honra e o privilégio de hoje poderem estar aqui.
Esta vitória como a de Aljubarrota, foram esmagadoras e determinantes na independência de Portugal e Inglaterra, que há 32 anos tinham selado a mais velha Aliança do Mundo, e que ainda hoje perdura.
Se Henrique V tivesse participado na Batalha de Aljubarrota 30 anos antes, teria ouvido D. Nuno Álvares Pereira fazer o mesmo discurso aos seus homens, antes do confronto que levou Castela ao reconhecimento da nossa independência.
O Santo Condestável, para além da coragem era um Homem de Fé; pouco lhe importava que do outro lado estivessem os melhores Cavaleiros de Espanha e França; sabia que eles vieram para se vingar da derrota de há um ano em Atoleiros; em que D Nuno Álvares teve uma vitória estrondosa contra Castela com menos de 1/3 dos efetivos; alguns deles, que ia angariando nos campos por onde passava a caminho de Fronteira “Atoleiros” o local da Batalha, onde infligiu uma pesada derrota a Castela.
Mas um acontecimento inédito em Atoleiros, esteve na origem da Vitória em Aljubarrota um ano depois. Castela deixou para trás 1/5 dos seus homens, enquanto D. Nuno Álvares não perde um único combatente; nem feridos graves segundo um cronista da época.
D. Nuno Álvares Pereira pensou, que teve em Atoleiros uma ajuda Divina; que o encoraja a enfrentar sem receio 36.000 castelhanos que vieram para resolver de vez as pretensões de Castela à Coroa portuguesa; do lado português estavam 6.000 homens, muitos deles tinham combatido em Atoleiros um ano antes, a que se juntaram 300 arqueiros ingleses ao abrigo da nova Aliança.
Bem preparados, estes ingleses que não perderam um único homem na Batalha; eles colocavam uma flexa no peito de um Cavaleiro em correria a 50 metros de distância.
Foi uma batalha terrível que durou várias horas, onde a cavalaria do lado castelhano quase toda constituída por Nobres Franceses, foram os mais fustigados; as tropas apeadas entraram em pânico porque se lembraram de Atoleiros; e colocaram-se em debandada sendo perseguidos e mortos.
O Campo de São Jorge em Aljubarrota ficou pejado de cadáveres; 1000 portugueses e 6000 castelhanos, onde mais de 1000 foram perseguidos e mortos; era um ódio antigo, que não se compreende porque havia milhares de portugueses a combater do lado de Castela; porque D. Beatriz era quem reclamava o Trono de Portugal e era portuguesa; no rescaldo do confronto centenas de feridos castelhanos foram executados.
D. Nuno Alvares Pereira, foi o mais Ilustre de sempre de todos os portugueses; tinha 23 anos quando assumiu o comando do exército de Portugal, e ganhou a Batalha de Aljubarrota aos 25; foi também o Homem mais rico e com mais títulos da nossa História; tudo deixou, para se dedicar áquilo em que sempre acreditou a Causa de Deus, passando o resto da sua vida em recolhimento; refletir o nosso passado e a vida destes Heróis, é abrir o caminho para o futuro.
A técnica do quadrado, foi utilizada por Alexandre Magno em Grandes Batalhas, para evitar deserções; obrigando os soldados a combaterem até à morte, porque estavam cercados pelo inimigo; o que implicava uma grande coesão do exército.
D. Nuno Alvares Pereira em adolescente, leu num livro esta novidade de combater e aplicou-a pela primeira vez na Batalha dos Atoleiros, onde inexplicavelmente não perdeu um único Homem.
* Joaquim Vitorino
Jornalista – Cronista
OBS 1: À memória de meu Avô paterno, nascido em 1890 na proximidade do Campo de São Jorge em Aljubarrota; o ano que foi o do ultimato inglês; e a todos aqueles que deram generosamente as suas vidas, naquele dia longínquo de 1385; a todos eles, devemos a nossa independência.
OBS 2: Pode ver o vídeo da intervenção de Henrique V no lado direito do site.
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