Celebramos de forma humilde os 150 anos do Diário de Notícias, dando à estampa o importante trabalho que retrata a desorganização do país e a ascensão de António de Oliveira Salazar.

Sem premonições negativas, lembramos que o povo exigiu às Forças Armadas a reposição da “ordem”. Convém recordar que o povo, maltratado, com fome, sem futuro, tem normalmente uma palavra.

O que se passa em Portugal com uma classe política impreparada ( poucas são excepções), ciosa apenas dos seus interesses, pode conduzir-nos a uma situação semelhante.

A actual discussão sobre as Pensões e a insustentabilidade das mesmas, pensões faraónicas, muitas sem os correspondentes descontos prévios, vai assustando.

É necessário estabelecer urgentemente a Pensão Máxima. Muitos países, destaque para a Suiça pagam pensões máximas de 1700 euros.

Não é aceitável ver o fosso alargar-se dia-a-dia, ver portugueses com fome, na miséria e uma classe alta, gestores super pagos. Não é aceitável que muitas crianças tenham fome, muitas famílias vivam na rua.

Talvez ainda seja possível evitar a repetição de um Golpe como o de 28 de maio de 1926, mas o tempo não é muito. Já não há tempo.

A apresentação de Sampaio da Nóvoa, ontem no Porto, tendo a seu lado o General Ramalho Eanes é uma esperança para o país. Ramalho Eanes não se aproveitou da “revolução”, não ganhou “rios de dinheiro” pelo contrário, foi prejudicado.

Tem ao longo da vida chamada a atenção para a situação de desespero no país. Acreditamos que seja uma inspiração para Sampaio da Nóvoa.

PF

1926 – Golpe de 28 de maio e ascensão de Salazar

A reportagem arranca com um diálogo em que o jornalista responde, a um militar na Amadora, que “em Lisboa, há sol como aqui. E paz. Não há nada.” A manchete desse 29 de maio diz tudo: “A ordem pública alterada mas em Lisboa e no Porto o sossego é absoluto.”

Mas dois dias depois, a “vitória do movimento militar” é recebida “com viva simpatia”. O País está “a caminho da normalidade” e o “Governo deve ficar hoje constituído”, faltando para isso a chegada a Lisboa do líder do “movimento revolucionário do Norte”. Nesse dia 31, “a ordem é absoluta em todo o País” – e assim se prolongaria por 48 anos.

Edições sucessivas do DN foram fazendo o acompanhamento noticioso

A ditadura militar saída do golpe de 28 de maio confrontou-se imediatamente com tentativas de derrube, tanto por parte dos republicanos apeados do poder como de elementos que se iam afastando do novo regime à medida que este se instalava.

Sob o comando do general Gomes da Costa, iniciou-se, às seis horas da madrugada de 28 de maio de 1926, a sublevação do Regimento de Infantaria 8, de Braga.

O outro mentor do golpe, almirante Mendes Cabeçadas, que, juntamente com Armando Ochôa, acabou por ser preso em Santarém, o que não impede que o movimento se estendesse ao País.

No dia 28 de maio de 1926 convergiram, em Portugal, “vários golpes de Estado” contra o governo republicano, movidos por razões diversas. Para o derrube da I República, que quase não foi defendida, juntaram-se dois grandes blocos políticos que viriam a confrontar-se até 1932, procurando hegemonizar a ditadura nacional erguida em 1926.

A 3 de junho de 1926, surgia já um novo Ministério da Ditadura Militar, em que se destacavam os professores de Coimbra católicos Mendes dos Remédios, Manuel Rodrigues e Oliveira Salazar, nomeado para as Finanças, mas por pouco tempo.

No seio do movimento militar triunfante alastraram desde logo os desacordos entre os chefes militares, em particular os generais Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa. A 11 de julho, o próprio Gomes da Costa viria a ser substituído na presidência do ministério por Óscar Carmona, pelos conservadores em torno de Sinel de Cordes, que assumiu a pasta das Finanças.

Este convidou, para presidir à comissão de estudo da nova reforma fiscal, Oliveira Salazar, que viria a afirmar-se como um dos principais críticos da política de fomento de Sinel de Cordes, defendendo a necessidade de um prévio equilíbrio orçamental, ao longo de 1927. Entretanto, Carmona assumia a Presidência da República e era substituído na chefia do governo pelo general Vicente de Freitas, que convidou António de Oliveira Salazar para o Ministério das Finanças.

Este foi desde logo apoiado pelo diário do Episcopado, Novidades, que, a 27 de abril de 1928, comentou a “escolha felicíssima” com “satisfação” e “patriótico entusiasmo”.

A ditadura militar, saída do golpe de 28 de maio, teve desde logo de se confrontar com tentativas de derrube, tanto por parte dos republicanos apeados do poder como de elementos que se iam afastando do novo regime à medida que este se instalava. À medida que derrotava essas tentativas, a ditadura militar reforçava a repressão e procedia à purga dos militares e civis da administração pública envolvidos.

Acampamento de tropas que participaram no levantamento de 28 de maio

Nesse período estavam já claramente formados dois grupos diferentes no seio do governo da ditadura. De um lado estavam as forças conservadoras, os monárquicos, os integralistas, os católicos e os filofascistas, que queriam formar um novo regime e tinham encontrado um líder em Salazar. Do outro lado estava a direita republicana liberal, que hegemonizava então o novo regime, representada então por Vicente de Freitas. Em 1929, teve de se confrontar com uma crise política – a “crise dos sinos” – que envolveu os ministros católicos, o da Justiça e dos Cultos, Mário de Figueiredo, e o aliado Salazar. Ambos se demitiram, embora este voltasse atrás, não sem antes sugerir ao general Vicente de Freitas que sujeitasse a exoneração dos dois ministros a Carmona. O chefe do governo pôs o Presidente da República perante a alternativa entre manter o governo, aceitando as demissões dos dois ministros católicos, ou deixar cair o ministério, abrindo caminho aos elementos próximos de Oliveira Salazar. O presidente da República decidir-se-ia pela segunda alternativa, convidando, a 9 de julho de 1929, o general Ivens Ferraz a chefiar um novo governo, não sem o informar de que Salazar deveria manter-se na pasta das Finanças. Ivens Ferraz retomou a política, já levada a cabo pelo antecessor, de contemporização com os republicanos da oposição, ao afirmar que o governo pretendia “contribuir para a acalmação política da sociedade portuguesa”. Salazar manifestou-se contra essa política, recebendo apoios de representantes da banca, comércio, agricultura, indústria e dos municípios.

Entrando finalmente em rota colisão com Salazar, Ivens Ferraz deixaria a chefia do governo. Carmona voltou a impor Salazar e Ivens Ferraz viu-se obrigado a pedir a demissão, aceite pelo chefe do Estado. Após vários convites, o general Costa Oliveira aceitar chefiar um novo governo, em que, além das Finanças, Salazar começou por assegurar interinamente a pasta das Colónias.

O ano de 1930 foi assim o do início da progressiva hegemonização do poder por Salazar, que então definiu o seu pensamento político e impulsionou o lançamento de dois importantes diplomas fundadores do futuro Estado Novo: o Ato Colonial e a União Nacional (UN). No dia 30 de dezembro, reuniram-se, no Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, algumas centenas de oficiais, com o pretexto da entrega da Grão-Cruz de Cristo ao governador militar, brigadeiro Daniel de Sousa, tendo Salazar aproveitado para fazer o “elogio das virtudes militares” e identificar os inimigos da pátria com os da ditadura.

O ano de 1931 foi depois o de todas as revoltas “reviralhistas” fracassadas. A 6 de maio, Salazar emitiu uma nota oficiosa a alertar para os danos causados à economia nacional por essas revoltas. E defendeu o “princípio da autoridade” e um “Estado forte”. A 26 de agosto, eclodiu ainda, na capital, um novo movimento, considerado como o “canto do cisne” do reviralhismo insurrecional.

O processo que decorreu até 1932, até Salazar hegemonizar a ditadura nacional e chegar à chefia do governo, não foi, pacífico. A 5 de julho de 1932 começava uma nova era no regime político português, com a tomada de posse de Salazar como presidente do Ministério, mantendo a pasta das Finanças.

Irene Flunser Pimentel – Notas sobre a Historiadora

Historiadora. Nasce em Lisboa, em 1950, é doutorada em História Contemporânea pela FCSH da UNL. É autora de vasta obra sobre a situação das mulheres e os meios de repressão do Estado Novo, bem como sobre o período da II Guerra Mundial em Portugal e na Europa.

Publicou Judeus em Portugal Durante a Segunda Guerra Mundial, História da PIDE e História da Oposição à Ditadura. Entre os prémios recebidos, conta-se o Prémio Pessoa, em 2007.

 

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