Mas afinal, quem é Anita?

Enquanto vai dando resposta a esta pergunta, a primeira temporada de “HUMANS” oferece uma das surpresas da ficção científica recente.

Num futuro não muito distante – às vezes, até demasiado próximo – , a família Hawkins decide finalmente comprar um synth, uma espécie de robô aprimorado (sobretudo na aparência e postura) capaz de fazer várias tarefas até então exclusivas dos humanos, de forma mais rápida e eficaz do que a maioria destes. E até aí tudo bem, mesmo com alguma discórdia entre pais e filhos em relação à decisão, não fosse dar-se o caso de Anita, o modelo em causa, começar a ter comportamentos pontuais que fogem ao padrão estipulado no manual de instruções.

O conflito (ou harmonia) entre o Homem e a máquina já alimenta boa parte da ficção científica há muito, da literatura ao cinema, mas não só é um tema cada vez mais actual (e em certos casos não tão ficcional assim) como ainda tem espaço de manobra para variações intrigantes. Esta co-produção entre o norte-americano AMC e o britânico Channel 4 estará entre os melhores exemplos dos últimos tempos, adaptando a premiada série sueca “Real Humans” (2012) com uma óbvia sofisticação de meios (sem se tornar visualmente ostensiva) enquanto valoriza o óptimo elenco que tem à disposição.

Ao lado da família de classe média que serve de âncora narrativa e emocional desta saga, os criadores Jonathan Brackley e Sam Vincent vão apresentando uma outra, certamente menos tradicional, até por se tratar de um grupo de synths. Mas de synths com consciência, em busca da sua liberdade e individualidade, ambição que esbarra com um sistema que os encara como um electrodoméstico multiusos (incluindo tarefas para maiores de 18).

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Se o território é familiar, e até foi abordado este ano em “Ex-Machina”, “HUMANS” propõe um retrato mais empático e menos clínico do que esse filme de Alex Garland, por exemplo, tirando partido de uma galeria de personagens com espaço para crescer – e não discriminando entre humanos e máquinas.

Tanto dá destaque a muitas revelações, com menção quase obrigatória para Gemma Chan, perfeita na exigente viagem emocional de Anita, como para veteranos como William Hurt, que na pele de um investigador solitário, com uma relação paternal com um synth, tem daqueles papéis à altura pouco vistos no cinema em muitos anos.

Sem viver de uma acumulação de cliffhangers ou outros golpes narrativos mais ou menos recorrentes no pequeno ecrã, a série arranca de forma discreta, até demasiado modesta à primeira vista, mas vai cativando pelo equilíbrio na forma como gere os muitos arcos narrativos e um tom capaz de oscilar, com fluidez, entre o thriller, o drama e um humor muito bem-vindo (e muito alicerçado nas personagens, afastando-se da sisudez de outras histórias futuristas centradas na inteligência artificial).

O único senão é mesmo o de oito episódios saberem a pouco, interrompendo a acção numa altura em que o potencial de algumas personagens começava a confirmar-se. Felizmente não é um caso perdido quando há uma segunda temporada a caminho, já em 2016, e é daquelas para marcar na agenda…

O AMC Portugal vai reexibir a primeira temporada numa maratona a 5 e 6 de Dezembro, a partir das 16 horas, com quatro episódios por dia.

  • Com Agências

 

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