Câmara do Porto quer criar rede de restaurantes solidários

O primeiro restaurante solidário do Porto já abriu as portas

Unidade da Batalha faz parte de uma rede que a Câmara do Porto quer criar e é coordenada pelos voluntários da C.A.S.A. – Centro de Apoio ao Sem Abrigo.

Todas as noites, voluntários percorrem a cidade a oferecer comida dentro de carros ou carrinhas nem sempre caracterizadas.

Param em pontos mais ou menos estratégicos: Mercado do Bom Sucesso, Rua Júlio Dinis, Rua da Restauração, Jardim do Carregal, Avenida dos Aliados, Rua da Alegria, Rua Sá da Bandeira, Rua Gonçalo Cristóvão. A Praça da Batalha saiu da rota.

De segunda a domingo, voluntários da CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo revezam-se para servir refeições no restaurante solidário.

Integram estes turnos outros grupos de voluntários do Núcleo de Planeamento e Intervenção nos Sem Abrigo (NPISA) do Porto, a rede de 39 entidades locais que trabalham com pessoas que dormem na rua, em locais precários, em abrigos de emergência ou em alojamentos temporários: Coração na Rua, Colégio Nossa Senhora do Rosário, Grupo de Acção Social do Porto (GAS-Porto), Saber Compreender.

A Polícia Municipal tem ordens para notificar quem tentar distribuir alimentos na Batalha. Deve encaminhar para a interlocutora do NPISA, Paula França, para que ela lhes explique a estratégia de integração definida para o Porto e lhes fale no restaurante solidário, como já fez com os Anjos Amigos ou os Missionários da Consolata de Águas Santas. Podem entregar os géneros que recolhem e integrar os turnos ou passar a distribuir comida noutra zona.

“Aqui é melhor”, comentava uma mulher, que lá costuma jantar. Chama-se Maria João. Tem 48 anos. Recebe pensão de sobrevivência. Faz “limpezas quando aparecem e recados quando pedem”. “Estamos abrigados da chuva, sentadinhos, à mesa. Nas carrinhas, ficávamos de pé, ao frio, à chuva.”

O restaurante solidário não veio apenas tirar quem distribui alimentos e quem os recebe do frio e da chuva. “O lixo que deixa de ficar na rua!”, exclamava a voluntária Joana Cruz. “E é mais digno. As pessoas podem sentar-se, num espaço fechado, comer uma refeição quente, com outra atenção.”

Há perto de três anos, a GAS Porto estudou as rotas dos voluntários.

Apontou zonas a descoberto. E zonas concorridas, com vários grupos de voluntários a aparecer na mesma noite, à mesma hora, a distribuir comida. E, dentro do NPISA, ganhou força o debate sobre a necessidade de encontrar lugares abrigados onde, através de um sistema de escala, os voluntários pudessem distribuir os alimentos.

Já neste Verão, no âmbito de um programa municipal destinado a reforçar respostas para pessoas em situação de sem abrigo, a Câmara do Porto anunciou a criação de uma rede de restaurantes solidários em quatro pontos estratégicos da cidade.

A primeira unidade abriu a 21 de Setembro, naquela rua inclinada, com uma cozinheira da Irmandade do Terço, ementas elaboradas pela Ordem dos Nutricionistas, alimentos recolhidos pela CASA, o Banco Alimentar, a Portis-Hostéis Portugueses, e supervisão da autarquia.

Nos primeiros 21 dias, as pessoas alinhavam-se pela rua acima e iam sendo servidas por ordem de chegada.

Desde quarta-feira, instituíram-se seis turnos de 20 minutos cada um entre as 20h00 e as 22h00. A ideia, explicou José Ornelas, coordenador da CASA, é evitar que as pessoas fiquem muito tempo à espera, de pé.

Na quarta à noite, os voluntários ainda estavam a acabar de formar grupos (para controlar a porta, empratar, pôr e levantar mesas, lavar e secar louça) e já se ouvia resmungar lá fora.

Coube ao voluntário João Ramos ficar à porta a explicar, uma e outra vez, que cada um recebia uma senha de uma cor, com um horário marcado, e deveria guardá-la para a mostrar todos os dias à entrada.

– Não tenho senha, brother! – insurgia-se um rapaz.

– Deixem esse para as 9h20, que esse tem tempo – atirava uma mulher, lá atrás.

– Deixa-me entrar, brother!

– O mais cedo é 8h40. As outras senhas já foram distribuídas – declarava o voluntário, paciente.

– Os restos não vou comer, pois não?

– Não.

– Eu vou ver isso, brother. Isto está muito mal feito.

Não podem entrar todos ao mesmo tempo, ia repetindo João Ramos. Um homem não percebia por que não: “A câmara pode fazer um refeitório maior!” Chama-se Manuel António. Tem 44 anos. “Tenho problemas no coração e problemas na cabeça. Vim aqui comer e tenho de estar à espera. Tem algum jeito, isto? Agora, com senhas! Comia-se melhor nas carrinhas. Três colheres de arroz e um bocado de carne. Não dão mais.

Dizem que têm muita gente!”

Lá dentro, os voluntários, naquele dia organizados por Susana Simão, serviam o caldo verde, o esparguete com costeletas e salchichas, o pão, a fruta fresca ou desidratada, a água. “É um sistema novo”, lembrava José Ornelas. “É o primeiro dia. É normal que demorem uns dias adaptar-se.”

Não estavam à espera de tanta gente.

Na Praça da Batalha costumavam parar umas 80 pessoas.

Para ali convergem agora pessoas de outros lados.

No fim, 168 jantares servidos a 21 de Setembro, 150 a 22, 145 a 23. A lista prossegue, irregular: 140, 124, 169, 150, 147, 136, 143, 190…

O tema será debatido quinta-feira, na aproxima reunião do movimento Uma Vida Como a Arte, um grupo de pessoas com experiência de rua. “A comida é um bocado escassa”, considera Carlos Brito, membro desse movimento.

Há quem, como Maria João, chegue ali tendo tomado apenas o pequeno-almoço, por volta do meio-dia, para engolir os medicamentos.

Este mês e o próximo são de aprendizagem para todos”, admitia José Ornelas. “Temos de identificar períodos em que há maior afluência”, prosseguia.

Essa informação permitir-lhes-á fazer acertos no número de voluntários  e no número de refeições. “Com um tão curto espaço de tempo ainda não conseguimos.”

  • Redacção e Público,com a devida vénia, pela relevância da matériaa.
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