O que levou 28.404 alentejanos a votar em Ventura? Abandono, protesto e perceções de realidade

  • Liliana Valente, in Expresso, com a devida vénia

NUNO VEIGA/LUSA (Com a devida vénia)

Ventura ganhou freguesias com maior incidência da comunidade cigana, mais do que uma questão de segurança, é uma questão de perceção e de distribuição de rendimentos. Contas feitas e números comparados, Ventura ganhou em quatro freguesias e ficou muito próximo dos resultados dos sociais-democratas nas legislativas de 2019. João Ferreira perdeu votos em relação àqueles que foram obtidos por Edgar Silva há cinco anos

Liliana Valente

Liliana Valente

Jornalista

Na Póvoa de São Miguel. Quando, depois do 25 de Abril, as câmaras municipais começaram a investir em infra-estruturas básicas, a Câmara de Moura chegou àquela aldeia para criar as primeiras infra-estruturas de esgoto e água. A população não queria, preferia que o dinheiro fosse empregue numa praça de touros. O que por aqui aconteceu há 40 anos pode dizer pouco sobre como estas pessoas votam em 2021, nos últimos anos entre o PS e o PCP, mas diz muito sobre o sentimento que por ali corre, mais tradicionalista e de grande “revolta” contra o sistema.

Póvoa de São Miguel foi uma das quatro freguesias nos distritos do Alentejo (os três distritos, Beja, Évora e Portalegre mais os quatro concelhos do distrito de Setúbal) a dar a vitória a André Ventura, ficando em segundo, na maioria das restantes. Em termos percentuais, a freguesia onde Ventura conseguiu uma vantagem superior foi a de São Vicente e Ventosa, em Elvas (freguesia PS), com 42% dos votos. Ganhou então a freguesia de Póvoa de São Miguel (freguesia também PS), em Moura, com 41,23%, e Sobral da Adiça (PCP), no mesmo concelho, com 34,05%. Alcançou ainda a vitória na freguesia de Mourão (PS), no concelho de Mourão, com 37,05%. Apesar de ter vencido na sede, perdeu o concelho para Marcelo Rebelo de Sousa, por 70 votos, num território de fraca densidade populacional, onde votaram mil pessoas (o mapa interativo onde pode ver estes detalhes está aqui).

A votação em Ventura nestas presidenciais

A votação em Ventura nestas presidenciais

“O abandono a que o interior tem sido votado, justifica muito deste voto. As pessoas viram-se despojadas de serviços essenciais: fecham escolas, postos de segurança, GNR, PSP, postos dos CTT… sentem que o país está a desistir delas e isso cria um sentimento de revolta facilmente canalizado por estes populismos”, diz ao Expresso Zélia Parreira, bibliotecária natural de Moura. A bibliotecária lembra que depois de terem sido construídas as infra-estruturas principais, “o investimento acabou completamente na zona do interior”. Muitas vezes as “autarquias preferem fazer investimentos em festas” do que no essencial.

A realidade dos três distritos alentejanos (mais os concelhos de Setúbal) é muito díspar, apesar de em todos André Ventura ter ficado em segundo lugar nestas eleições presidenciais que reelegeram Marcelo Rebelo de Sousa. No total conseguiu 28.404 votos. Beja, Évora e Portalegre saltaram cedo nos noticiários com os resultados, mas Ventura acabaria por conseguir bons resultados no interior (e em alguns distritos do litoral). No total dos quatro distritos alentejanos, não ganhou nenhum concelho, mas ficou em segundo em 33 dos 48 municípios, em 14 em terceiro. A exceção foi Castro Verde, onde ficou atrás de Marcelo Rebelo de Sousa, João Ferreira e Ana Gomes.

A ideia de abandono pelos governos tem feito crescer alguma revolta que não se traduzia em voto e que agora se tem ido organizando. De notar que no concelho alentejano onde Ventura teve um pior resultado, Castro Verde, é também um dos que tem o PIB per capita mais elevado, por causa das minas Neves-Corvo. O mesmo se passa no concelho vizinho, de Aljustrel, onde Ventura ficou em terceiro e com uma percentagem das mais baixas (11,94%).

O PROTESTO CONTRA O GOVERNO E CONTRA OS CIGANOS

Há vários fenómenos que o podem explicar. Um deles é o adormecimento de parte da população. Enquanto uns dormem, os outros levantam-se em revolta e nem sempre o protesto tem um fim: “As pessoas não perdem tempo a pensar nas coisas que lhes dizem. Há uma grande alienação”, diz Zélia. “Aparece este Ventura com este discurso populista e oco – é o que mais me espanta, as pessoas não perdem tempo a pensar nisso. Ele aparece como porta-voz de alguns problemas, mas bastaria tomar um pouco de atenção para perceber que não é nada disso, é o contrário”. Mas muitos não chegam a esta parte.

Um desses exemplos é o discurso em relação à comunidade cigana.

Cruzando os dados do Estudo Nacional Sobre as Comunidades Ciganas (de 2014), percebe-se que Ventura ganhou lastro nos concelhos com maior peso relativo desta comunidade.

No top 10 de concelhos com mais peso relativo, sete são no Alentejo e em seis Ventura ficou em segundo, atrás de Marcelo. Estes foram os resultados de Ventura nesses concelhos:

1. Monforte – 31,41%, 360 votos – 2º

2 . Moura – 30,85%, 1430 votos – 2º

3. Estremoz – 23,32%, 1108 votos – 2º

4. Alter do Chão – 25,25%, 298 votos – 2º

5. Vidigueira – 16,26%, 357 votos – 2º

6. Elvas – 28,76% – 2086 votos – 2º

7. Serpa – 19,21%, 1095 votos – 3º

Acresce que, por exemplo, no concelho de Moura são exatamente as freguesias com comunidades ciganas mais relevantes que votaram mais em Ventura. Aqui, o discurso passa mais pela perceção do que pela realidade. Não há grandes problemas de segurança. Ventura sabe disso, mas trabalha na perceção há largos meses: em julho do ano passado foi visitar o posto da GNR de Moura, pouco depois de ter havido um surto na comunidade cigana naquele concelho e de ter sugerido um confinamento especial para a comunidade.

Contudo, naquelas aldeias, o que mais faz arder os ódios é a questão de rendimentos. O discurso de Ventura, que repete à exaustão, de que há metade a trabalhar para a outra metade que não trabalha, é fósforo a pegar no rastilho. Os dados mostram que a comunidade cigana recebe uma ínfima parte do Rendimento Social de Inserção, apenas 3,8%, mas a perceção é a de que recebem mais do que quem trabalha.

Os vizinhos vêem pessoas de etnia cigana a levantar os cheques do RSI nos correios, lembra Zélia, e isso cria a ideia de que lhes está a ser dado dinheiro por nada. Mas essas pessoas não trabalham porque “não têm acesso ao trabalho, não vamos fingir que têm”.

A bibliotecária conta que chegou a falar com alguns empregadores a perguntar-lhes se estariam dispostos a empregar membros da comunidade cigana e que lhe disseram que não. “Se não lhes dão emprego, eles só têm duas hipóteses para terem dinheiro para comer: ou roubam ou temos de lhes dar dinheiro para se sustentarem”. Escolhe a segunda opção. Zélia pede que se pense sobre afinal que solução tem o Chega para resolver esta questão entre vizinhos: “Nenhuma”, responde.

Zélia é ativa na sociedade alentejana e defende que neste momento é necessária uma formação “dia-a-dia”, para tentar não deixar as pessoas sozinhas, sem respostas, porque muitas “entraram naquele túnel, vamos tentar que não entrem mais”, diz.

E OS IMIGRANTES?

No último dia de campanha eleitoral, o “Diário do Alentejo” entrevistou a mandatária de Ventura para o distrito de Beja. O discurso tocava em todos os pontos, gerais, do que é o discurso do candidato. Não apresentava soluções, mas falava de “problemas” sem os detalhar ou sequer basear em dados ou factos: “Há o facto da invasão que temos tido por migrantes, que tem de ser controlada”, dizia Andreia Agostinho.

Muitos dos concelhos alentejanos conheceram nos últimos anos um crescimento acentuado do olival e da vinha e, como consequência, um aumento da população imigrante, muita dela flutuante, para as campanhas anuais. Uma questão que é visível sobretudo em concelhos como Serpa, Ferreira do Alentejo e Moura. O recurso a imigrantes tem no entanto uma explicação, acredita Fernando Caeiros, autarca independente eleito pela CDU durante 32 anos, em Castro Verde: “O proletariado rural desapareceu, é diminuto. Se não fossem estas pessoas os empresários não tinham quem lhes apanhasse as uvas e as azeitonas”.

Um desses empresários é o comendador António Silvestre Ferreira, da Herdade do Vale da Rosa, no concelho de Ferreira do Alentejo. Para cada campanha de apanha da famosa uva sem grainha, o comendador chega a precisar de mil trabalhadores e tem de os recrutar pelo mundo, porque não os encontra em Portugal. Em 2018 começou um programa de acolhimento de luso-venezuelanos, mas enquanto não consegue cativar trabalhadores permanentes, tem de recrutar noutros países, sobretudo nos países asiáticos.

Apesar do crescimento da imigração, também ali não se conhecem problemas de segurança de maior. Na verdade, lembra Fernando Caeiros, estas comunidades estão praticamente “auto-confinadas”, porque vivem em instalações dentro das próprias herdades, não saindo muito nem socializando com os locais. “Quando fez falta mais gente, não havia locais. O trabalho também não é bem pago. As pessoas reagem, mas não faz sentido. Elas não quereriam trabalhar ali”.

Nestes concelhos, seja Moura, Serpa ou Ferreira do Alentejo, o Chega obteve também um crescimento assinalável, mas os números absolutos são baixos, sobretudo em Ferreira onde houve 369 pessoas a votar em Ventura.

O candidato comunista perdeu 4.948 votos nos distritos do Alentejo quando se faz a comparação com os resultados do candidato Edgar Silva, apoiado pelo PCP, nas presidenciais de 2016. A perda de votos do PCP não parece assim explicar o sucesso de Ventura no Alentejo, parecendo haver, isso sim, uma transferência de voto para Ana Gomes, para Marcelo Rebelo de Sousa (que subiu bastante de votação nos três distritos) e para a abstenção. Uma leitura possível de fazer é a de que Ana Gomes conseguiu consumir parte dos votos que há cinco anos tinham sido de Marisa Matias, como os que João Ferreira perdeu. Em Beja, os dois candidatos da esquerda perderam um total de 6.259, Ana Gomes teve 5.613; em Évora, os dois perderam 7.405 voto, Ana Gomes obteve 5.974; em Portalegre, os dois perderam 4.292 votos e Ana Gomes obteve 4.034. Não explicará tudo, dado que há cinco anos, Sampaio da Nóvoa, apoiado por uma ala do PS, conseguiu um resultado elevado no Alentejo.

Nos três distritos, Marcelo conseguiu mais 13.469 votos, o que parece significar que conseguiu captar votos perdidos um pouco por todo o espectro político.

Caeiros acredita que muitos dos votantes do PCP ficaram em casa, “confinados”, dado que é uma população mais velha. Mas há também aqui um ponto a reter: o PCP com a “geringonça” já tinha tido dificuldades nas eleições autárquicas, perdendo várias autarquias para o PS. Zélia Parreira acredita que houve também alguma penalização: “O PCP deixou de ter a posição de oposição”, o PSD nunca conseguiu ter esse papel no Alentejo, por isso, o caminho estava mais aberto para outro discurso, diz a bibliotecária.

O próprio Rui Rio, líder do PSD, admitiu que o seu partido sempre teve muitas dificuldades no extenso território a sul do Tejo e, a avaliar pelos votos de André Ventura, parece que o espaço à direita do PS não cresceu assim tanto nos distritos do Alentejo.

Retirando Marcelo Rebelo de Sousa da equação, em quem muitos socialistas, comunistas e bloquistas alentejanos terão votado, os votos dos outros dois candidatos da direita (Ventura e Tiago Mayan Gonçalves) são quase coincidentes com os votos que o PSD obteve nas legislativas de 2019.

Em Beja, Ventura obteve 8.490 votos, o PSD tinha tido 8.544 (Mayan obteve 708); em Évora, Ventura conseguiu 9.720 votos, o PSD tinha conseguido 12.937 (Mayan teve 1176, o que perfaz os dois juntos mais próximos do resultado do PSD); o mesmo em Portalegre, Ventura com 7.908 votos, Mayan com 703, perfazendo 8611, mais próximo dos 10.375 que o PSD obteve.

A explicação encontra-se no voto mais tradicional no PSD no Alentejo. A prova de fogo de Ventura será em quem conseguirá mobilizar para as autárquicas nestes distritos.

Para Caeiros, “o Chega está a substituir a facção mais conservadora do PSD e a reduzir a pó o CDS.

Quando forem as autárquicas”, se verá quais os rostos que apresenta para tentar captar o voto mais de proximidade.

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