Barómetro Geopolítico: Alta pressão, tempestades à vista, risco de conflito global e um guarda-chuva hegeliano

Patricia Akester

Quando olharem para o dia 24 de Fevereiro de 2022, os historiadores do futuro dirão que ali teve início não só a invasão do território ucraniano por tropas da Rússia, mas a Terceira Guerra Mundial” (Paul Poast, Universidade de Chicago, Março de 2022). O futuro dirá. Certo é que a narrativa em torno da  conflagração de uma 3.ª Grande Guerra se intensificou nos últimos tempos, reflectindo tensões geopolíticas elevadas e a escalada de conflitos em diversos pontos críticos do globo. Como explicou Grant Shapps, responsável pela pasta da Defesa no Reino Unido, verificou-se uma transição alarmante de “um estágio pós-guerra para uma fase pré-guerra”.

Com efeito, declarações marcantes do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e do ex-primeiro-ministro Oleksiy Honcharuk sugerem que a 3.ª Guerra Mundial pode já ter começado. Comentários similares em meios de comunicação de renome, como o New York Times, assinalam a preocupação de que o combate em curso na Ucrânia seja precursor de uma catástrofe maior. É indubitável que esta guerra, exacerbada pela contínua agressão russa, requer uma resposta internacional coordenada e robusta, para estabilizar a região e evitar o agravamento da situação.

A China, por sua vez, tem manifestado uma postura crescentemente assertiva em relação a Taiwan, proclamando com vigor a premência do combate ao movimento pró-independência taiwanês. Adivinha-se aqui uma crise pendente ou iminente, um confronto militar significativo em estado de incubação, que poderá convocar a participação dos EUA e dos seus aliados e ter ramificações globais. Este contexto exige delicada diplomacia, estratégia de contenção, diálogo multilateral e acordos de paz robustos que garantam a estabilidade regional.

Ainda na Ásia, as contínuas ameaças nucleares de Kim Jong-un, advindas da Coreia do Norte, lembram ao mundo as tensões vividas durante a Guerra da Coreia, caracterizada que foi pelo envolvimento militar directo das grandes potências sob os auspícios da ONU. Esta conjuntura invoca a Guerra Fria e a indispensabilidade de negociações em sede de desarmamento e de tratados para obstar à escalada nuclear.

Sem esquecer o Médio Oriente, que permanece como região de alta volatilidade. À catástrofe de foro humanitário vivida há seis meses em Gaza, acrescem os recentes ataques directos do Irão a Israel (sem recurso a intermediários ou “proxies”) que têm o potencial de desencadear uma sequência de retaliações e de alargar consideravelmente o escopo do conflito na região. Consequentemente, é crucial a manutenção de um equilíbrio delicado entre força e diplomacia, recordando as tácticas usadas para gerir rotas de colisão aquando da Guerra Fria.

Como sabemos, a possibilidade de um novo conflito à escala global surge no decurso de conflagrações de porte similar ocorridas no século XX. Com razão diz Hegel que “tudo o que o homem aprendeu com a história é que  não aprendeu nada”. A citação do filósofo alemão encerra uma crítica à tendência humana de subestimar padrões recorrentes no âmbito de eventos históricos e à persistente incapacidade de absorver e aplicar as lições do passado. Hegel enfatiza a incoerência entre o conhecimento histórico e a acção humana, expressando um profundo cepticismo no respeitante à capacidade de aprender com os erros do passado.

Contudo, a possibilidade de uma 3.ª Guerra Mundial, num mundo onde as armas nucleares continuam a proliferar e as tensões geopolíticas se acentuam, serve como lembrete sombrio da necessidade imperiosa de interiorizar as lições provenientes da História e assim evitar um futuro marcado pela repetição de tragédias passadas. Os desenvolvimentos globais impõem, de facto, uma análise meticulosa das lições decorrentes da 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais bem como da Guerra Fria, lições essas que permitem, perante o panorama geopolítico actual, prever possíveis consequências de certas acções e omissões.

É indispensável, portanto, que os ensinamentos e os alertas de ontem orientem as políticas de hoje. Não se trata de estar simplesmente a par dos factos e sim de beber as lições morais e pragmáticas que eles oferecem.

Mais, a História sublinha a importância crítica de considerar a hipótese de uma nova guerra à escala global não apenas como especulação, mas como ameaça iminente que requer resposta estratégica, cuidadosa e ponderada. A discussão sobre este tema não se traduz, com efeito, em especulação académica e sim em imperativo prático e urgente para a sobrevivência futura da Humanidade num mundo interconectado e volátil.

A referência expressa e crua à probabilidade de uma 3.ª Guerra Mundial não serve apenas como dispositivo retórico, convidando a uma profunda reflexão sobre riscos geopolíticos genuínos e alertando os líderes mundiais sobre a necessidade premente de  agir com prudência num cenário global profundamente instável. A possibilidade em causa deve funcionar como uma chamada à acção coordenada, acentuando a relevância de uma diplomacia robusta e de uma política de Defesa eficaz para alcançar a paz e a segurança globais.

Por conseguinte, embora a perspectiva de uma 3.ª Guerra Mundial seja profundamente alarmante, esta matéria deve ser parte integrante do discurso internacional, recordando, à medida que se navega esta paisagem geopolítica perigosamente precária, a imprescindibilidade de decidir e de actuar no sentido de forjar caminhos que evitem os erros do passado, porquanto “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” (George Santayana).

Nota 1: A autora não escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico.

Nota 2 : Com a devida vénia ao Diário de Notícias e à Autora.

Nota 3 : Patricia Akester ´w fundadora do Gabinete de Propriedade Intelectual / Intellectual Property Office (GPI/IPO) e Associate do CIPIL, University of Cambridge

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